Nise, O Coração da Loucura e a Luta Antimanicomial

quarta-feira, 18 de maio de 2016 | 17:16 | Por 3 comentários
O Movimento de Luta Antimanicomial se refere a um processo organizado de transformação dos serviços psiquiátricos e tem o dia 18 de maio como data de referência no calendário nacional.

Dra. Nise da Silveira
Por isso, hoje, para fomentar o debate sobre a importância do fortalecimento da luta e da construção de um novo olhar social sobre os sujeitos, respeitando suas singularidades, refletiremos sobre história da Dra. Nise da Silveira, psiquiatra alagoana que foi figura pioneira na luta antimanicomial no Brasil, conhecida por questionar e trazer à discussão às práticas extremamente violentas empregadas no tratamento de pessoas com transtornos mentais, e que teve há pouco tempo o filme “Nise: O Coração da Loucura” contando parte importante de sua história revolucionária. Esse é um filme para ver e rever, se inspirar e pensar em qual nosso lugar na transformação da sociedade em que vivemos.

"Querer-se livre é também querer livres os outros". Simone de Beauvoir
Única mulher em uma turma com 157 homens, Nise formou-se como uma das primeiras médicas brasileiras. O envolvimento de Nise com o marxismo rendeu-lhe 15 meses de reclusão no presídio Frei Caneca. Depois de passar esse tempo na prisão, Nise começou a se interessar muito pela terapêutica por meio das atividades. Ela percebeu que os presos que deixavam de fazer coisas, sucumbiam, e os que se apegavam aos afazeres, por menores que fossem, seguiam adiante. Nise teve uma vida longa, entretanto, o filme “Nise: O Coração da Loucura”, conta uma parte pequena - mas definitiva - de sua trajetória profissional: o trabalho que realizou no hospital psiquiátrico público Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, após sair da prisão. Ela revolucionou a forma de tratar pessoas com sintomas psicóticos, com uma coragem digna de respeito e muito amor pelos seres humanos.

O filme mostra a realidade com a qual a Dra. Nise (interpretada por Gloria Pires), se deparou ao retornar ao serviço após quase um ano e meio presa. O filme se inicia com Nise retornando ao hospital psiquiátrico onde trabalha, no Engenho de Dentro. Bate uma vez no portão, ninguém ouve, ninguém abre. Bate novamente, várias vezes, e nada. Continua batendo, e começa a esmurrar o portão até ser ouvida, e finalmente, entrar.

Percebe-se nessa cena de abertura o uso assertivo da linguagem simbólica, ferramenta de comunicação inconsciente que seduz quem assiste do começo ao fim do filme. O portão dividia dois mundos: o “real” do “insano”. E a cena representa como ela não seria facilmente aceita ali dentro, e também como não seria fácil entrar dentro da mente de seus clientes, como preferia chama-los. “Pacientes não! Nós que devemos ser pacientes com eles, pois estamos a serviço deles. Eles são nossos clientes!”, dizia a Dra. Nise da Silveira.

Logo nessa primeira cena, Nise mostra a que veio. Ao insistir e bater fortemente no portão do hospital até finalmente ser atendida, demonstra sua teimosia tão benéfica. Desde o princípio, o filme mostra como ela era uma mulher forte, rebelde e determinada. No momento de sua chegada, o hospital é um lugar brutal. Apesar do drama tentar se manter longe do aspecto da “tortura sádica”, característico do sistema, é impossível não se chocar com o quadro do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil. Em uma das cenas seguintes, a psiquiatra se dirige ao local onde os médicos – todos homens – explicam sobre os tratamentos que eram realizados na época e que hoje são condenadas: a eletroconvulsoterapia (eletrochoque) e a lobotomia. Na década de 1940, a convulsoterapia era considerada uma das práticas mais modernas no tratamento de pessoas com esquizofrenia. Mas Nise, claro, tinha outra visão sobre o assunto. A maioria dos clientes foram simplesmente mantidos trancados e drogados em sua apresentação.

Apesar de perplexa e assustada, a Dra. Nise se opõe, levanta questionamentos e pontua a falta de humanidade dos procedimentos. Ela se recusa a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos, e por isso, é isolada pelos médicos do hospital. Assim, o diretor da instituição, vendo que a psiquiatra não iria se submeter a adotar aqueles métodos, decide encaminhá-la para o menosprezado Setor de Terapia Ocupacional (STO) - relegado a um porão - para isolá-la e não incomodar os médicos da alta cúpula, acreditando que, assim, estaria arruinando sua carreira. Mal sabiam eles que seria no STO que Nise começaria a revolucionar o tratamento psiquiátrico através de um trabalho humanizado mediado pela arte, pela loucura e pelo amor. 

Numa época dominada pelo machismo, essa mulher ousou desafiar os padrões psiquiátricos e sociais, sendo ridicularizada por seus próprios colegas, que fazem de tudo para a prejudicar e desmotivar quando seus métodos começam a dar resultados. Porém, engajada e entusiasmada com os métodos que estava descobrindo, ela lutou e ganhou uma batalha contra o preconceito dos homens e da ciência, ao simplesmente enxergar e tratar seus pacientes como seres humanos que mereciam respeito, visando realmente o bem e a preservação da saúde de cada um deles. A força e o cuidado de Nise nos permitem visualizar a capacidade transformadora do amor e das relações afetivas.

A exploração das subjetividades, do que é sensível, da história do sujeito - através da criação artística - é o método terapêutico adotado por Nise quando assume o STO e cria um ateliê. Ela encontrou suporte teórico na psicologia Junguiana para compreender toda a linguagem do inconsciente manifesta naquele acervo, evoluindo naturalmente da Terapia Ocupacional para a Psicologia Profunda, tornando-se referência para a psicologia Junguiana do Brasil, e sendo a primeira terapeuta brasileira a usar a criação artística como método terapêutico de exploração do inconsciente. Contudo, sempre afirmou que seu conhecimento prático de psicologia foi aprendido lendo Machado de Assis, e seus conhecimentos do homem vieram de suas leituras de Marx. Sempre inovadora, ela insere a pintura e a escultura como chances para aquelas pessoas se expressarem. Verdadeiras obras foram produzidas, e Nise mostrou que essas artes eram muito mais do que belos quadros: todas contavam de um modo peculiar a história do inconsciente de cada um. Propor práticas humanas e valorizar a criatividade dos pacientes dentro daquela rígida instituição foi, na prática, fazer revolução.

Em 1954, Nise teve contato com Jung através de cartas, onde discutia as mandalas pintadas por seus pacientes. Jung se impressionou com todo aquele material, e explicou a Nise que, como ela já havia percebido lendo suas obras, aquelas eram manifestações do inconsciente coletivo. As mandalas eram reações de compensação do inconsciente ao caos que a psicose produz na consciência, uma tentativa de reunificação do ego rompido. A predisposição dos psicóticos para reproduzirem imagens iguais ou semelhantes eram tentativas de vencer a ruptura do ego, utilizando um material arcaico de situações já vividas pela humanidade. Jung confirmou à Nise que a linguagem das pinturas, modelagens e desenhos de seus artísticas psicóticos seria a dos arquétipos, e que isso poderia ser a ponte para ela entender a psicose. 

Toda a produção de mandalas foi matéria-prima para o reconhecimento de Jung sobre a relação entre inconsciente e vida simbólica, e todas as obras produzidas deram origem ao “Museu de Imagens do Inconsciente”: instituição pioneira fundada por Nise da Silveira para o tratamento dos pacientes em regime de portas abertas. Jung inaugurou a exposição “Esquizofrenia em Imagens”, do Museu de Imagens do Inconsciente, na presença de Nise, na Suíça, em 1957, quando eles se encontraram pela primeira vez. Essa mostra foi o reconhecimento mundial definitivo das ideias e do trabalho de Nise. 

Os ditos loucos tinham espaço para criar e consequentemente transformar-se, as mudanças eram reais e satisfatórias, porém, os médicos não conseguiam ver, e mais do que isso, não admitiam que uma mulher, através do uso da arte, alcançasse feitos tão eficientes, mostrando sua real competência. Entretanto, ela não se abalava, e continuava certa da importância de seu trabalho tão construtivo e transformador. O filme também mostra como Nise explorou as funções terapêuticas que os animais podem ter, convivendo com os clientes para criar relações afetivas e de cuidado, incentivando demonstração de carinho – assim como os gatos da psiquiatra, que sempre estavam por perto. 

Além disso tudo, o roteiro do filme vai além das ações de Nise da Silveira, mas tem também o cuidado de dar a cada personagem uma história e um estilo artístico, colocando os clientes também como protagonistas. Explorando variados quadros psicopatológicos, mergulhamos nos sintomas de Emygdio de Barros, Adelina Gomes, Lucio Noema, Raphael Domingues, Fernando Diniz, Carlos Pertius e Octávio Inácio. O roteiro recusa-se a exagerar no drama, mesmo tendo oportunidade de fazê-lo, e faz realmente justiça ao povo que retrata.

A história de alguns desses personagens – como Fernando Diniz, Carlos Pertius e Adelina Gomes – já haviam sido retratadas em filmes anteriormente. O cineasta Leon Hirsman, em parceria com a própria Dra Nise, produziram a trilogia “Imagens do Inconsciente”, onde ela mostra esses três pacientes e suas respectivas pinturas. Ao analisar um a um, a Dra. Nise busca em suas pinturas os simbolismos que representam as agonias vividas por eles. 

Apesar do diálogo com a arte, que foi o que deslocou a problemática da loucura do campo da psicopatologia médica para o campo da cultura e do social, o posicionamento sócio-político da produção de arte não tem muito foco durante o filme. O filme toca apenas de forma superficial as questões políticas da época, mas deixa em evidência o machismo sempre presente e institucionalizado. O longa mostra a realidade que Nise se deparou ao retornar ao serviço – que não é diferente da realidade que ainda vivenciamos – onde o Poder, travestido de ciência e conhecimento, controla através da força, da violência, do machismo, dos maus tratos e abandonos, pessoas que são reduzidas e tratadas como objetos. Nise se colocou como defensora da vida e da dignidade de cada um como ser humano, opondo-se aos tratamentos desumanos e violências as quais os clientes eram submetidos. Ela demonstrava que o amor, o respeito, a dignidade, o cuidado, a compreensão do olhar, são as potências capazes de propiciar um espaço transformador em que todos estão envolvidos – clientes e equipe. 

Assim, o filme “Nise: O Coração da Loucura”, pode levar os espectadores a raiva, a rir, a chorar, e a emocionar-se com uma facilidade extrema. Sem perder a sensibilidade e a profundidade, Nise foi uma mulher visionária, realista, corajosa e com o poder de ser agente de mudanças, de transformar vidas. Os esforços de Nise continuam atuais e necessários para o país, que ainda possui hospitais psiquiátricos e manicômios que continuam reproduzindo a violência já presente em nossa sociedade. O filme é recomendado a todos os corações loucos que precisam reanimar os ânimos, pois mobiliza uma indignação necessária nesses tempos de retrocessos que o Brasil está passando.

Na nossa atual conjuntura política, temos vivido uma série de ameaças às políticas sociais que são frutos de lutas e mobilizações do povo para garantir seus direitos. Estamos vivendo um contexto de conservadorismo e repressão às manifestações políticas, onde o congresso é formado majoritariamente por homens conservadores, ruralistas, militares, religiosos, misóginos e homofóbicos. Não podemos deixar de refletir que, historicamente, mulheres, negras/os, gays, lésbicas, travestis e transexuais – pessoas que fogem à regra cis-heteronormativa, são estigmatizadas e violentadas simplesmente por serem quem são. Até hoje produzem-se inúmeros conceitos em torno desses sujeitos, para enquadrá-los como menos dignos de respeito, produzindo sofrimentos psíquicos e complexos para os mesmos. E quem define o que é normal e “anormal”? Quem define o que é saudável ou patológico numa sociedade adoecida como a nossa? Quem “produz” a loucura? Quem a encarcera? Quais os interesses por trás? 

Diante de tantas reflexões, vamos nos movimentar, com força, como Nise fez. Vamos levar o debate sobre o direito à livre expressão das diversidades, o direito ao delírio sem aprisionamento, a uma vida social digna independente de raça, classe e crença. Vamos provocar toda a sociedade, ampliar a participação de toda e qualquer pessoa, além dos trabalhadores, dos usuários, familiares, estudantes... levaremos a reflexão crítica sobre a responsabilidade de cada um no processo de desconstrução desses estigmas, para que possamos lutar juntos e fortalecidos, na defesa ativa das conquistas sociais e contra qualquer retrocesso, apostando na arte, na cultura, e principalmente, no poder transformador dos afetos e das afetações.

Coragem para transformar vidas, pois trancar não é tratar! Saudações Antimanicomiais!

Isabela de França Meira

Pra assistir:
- Nise: O Coração da Loucura
- A triologia "Imagens do Inconsciente"

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