Precisamos Falar Sobre o Kevin

quinta-feira, 2 de outubro de 2014 | 15:08 | Por 8 comentários
Nós precisamos falar sobre o Kevin. Precisamos mesmo? Precisamos. Kevin é o pesadelo em forma de filho, é um jovem capaz de inspirar os piores receios sobre a maternidade: é malcriado, agressivo, dissimulado, grosseiro. Kevin é um caso sério, realmente precisamos falar sobre ele. Mas como? Lendo análises sobre o filme, me perguntei sobre o quanto buscamos a razão de tudo. Dar uma explicação para o inexplicável nos deixará mais seguros? Explicar? Não temos aqui essa pretensão. Por agora, vamos compartilhar diversos olhares e reflexões para provocar em cada leitor a vontade de assistir ao filme.

Esse filme é um drama de fato impactante e perturbador, que promove um mergulho no submundo da relação conturbada de uma mãe com um filho que ela nunca desejou ter e que por conta disso, não sabia como amá-lo. Adaptado do romance de Lionel Shriver, o filme é uma experiência dilacerante e impossível de apagar da mente depois de encerrada a sessão. A intensa experiência de assistir ao longa vai acompanhá-lo por dias, mesmo semanas depois de vê-lo.

A Eva jovem é uma mulher livre e de espírito alegre a correr o mundo atrás de aventuras. Na cena de abertura ela está mergulhada no vermelho vivo dos tomates em uma celebração de colheita tradicional na Itália. Um salto no tempo e a atriz incorpora a dor, o desamparo e o sofrimento de uma mãe constantemente agarrada à esperança de que suas impressões sobre o filho estejam equivocadas. E, no tempo presente, a vemos como um resquício de mulher tentando sobreviver à tragédia e rejeição.

Inicialmente, o filme mostra a vida de Eva, visivelmente abatida, solitária, depressiva e socialmente marginalizada, sem deixar, no entanto, um motivo aparente. A história é contada a partir de flashbacks para que se possa entender o porquê do sofrimento que Eva tanto carrega nos olhos. A partir daí a trama transita entre passado e presente e vamos sendo apresentados ao desenrolar dos eventos que causaram todo o pesar na vida dessa personagem: um crime, cometido pelo filho mais velho em uma escola. Mas que crime? Por quê?

Diante desse exercício magistral de culpa e horror que se desenrola diante dos olhos do espectador, surgem vários questionamentos. O que levou Kevin a cometer esse crime? É justo condenar a mãe de Kevin pelos atos dele? Precisamos falar sobre Kevin retrata a história de uma família que não consegue falar sobre Kevin, muito menos reconhecer a gravidade do comportamento dele.

Eva era uma linda mulher, independente, casada, bem-sucedida na sua carreira de escritora, quando sua vida perfeita muda radicalmente com a gravidez, que era desejada pelo marido, mas visivelmente rejeitada por Eva. Ela não desejava ser mãe, mas sua barriga crescia a cada mês, e por conta disso, abdicou de sua carreira e sonhos. Desde antes do parto, a maternidade parece se configurar como um fardo muito difícil de ser carregado. Nosologicamente, é nítido que Eva encontra-se em uma profunda depressão pós-parto; contudo, o filme vai muito além disso, mostrando todos os desdobramentos do mórbido encontro entre características inatas e um ambiente pouco favorável. O parto surge como um momento doloroso, extremamente difícil, um fardo repleto de sofrimento e desgosto. Há uma rejeição pela chegada do bebê, os braços inábeis de Eva não sabem sequer acolher o pequeno Kevin, resultados dessa possível depressão pós-parto.

A depressão pós-parto é uma depressão moderada ou grave que pode ocorrer logo após o nascimento ou até um ano depois. Na maioria das vezes, ocorre dentro de 3 meses após o parto.

Kevin, filho de Eva, vem ao mundo nos braços gélidos e inábeis de sua mãe devastada. O filme mostra as interações crescentes de violência entre os dois ao mesmo tempo em que entrecorta as imagens com tentativas da mãe de reparar, seja raspando a tinta vermelha jogada em sua casa após a tragédia, seja na infância de Kevin, quando tentava ser amável com ele.

O desapego e desinteresse de Kevin pelo mundo fica nítido em diversos momentos e em situações de seu desenvolvimento. Kevin cresce com diversas manifestações de crueldade, desprovido de qualquer empatia, primeiramente contra sua mãe e depois contra seus colegas de escola.

Os atos de violência são recíprocos e predominantemente substituem quaisquer outras formas de demonstração de afeto entre os dois. Seu relacionamento não é penetrado por ninguém, seja pelo pai, seja por outras pessoas. A ausência do pai é constante durante toda a história e mostra-se na sua incapacidade de dar-se conta da agressividade de Kevin em pequenos eventos da infância, sempre amenizando como "coisas que meninos fazem".

Ao longo da trama a sensação constantemente sentida é que Kevin é um ser repugnante, desprovido de empatia e carisma, que nasceu somente para causar o sofrimento da mãe. O personagem é apresentado em três “estágios” de desenvolvimento, o que enriquece ainda mais a trama, mostrando a personalidade forte do garoto desde o nascimento.


Uma das cenas mais simbólicas e angustiantes do filme mostra essa mãe com esse filho, ainda bebê, que não parava de chorar um minuto sequer. Não é incomum pais entrarem num surto de estresse com choro de crianças. No filme, a mãe não chega a nenhum radicalismo, mas está sempre a um segundo de explodir. Nessa cena, ela passeia por uma rua movimentada da cidade com o bebê no carrinho. Ele vem chorando há dias. A mãe não dorme, não vive, apenas escuta o choro incessante da criança. Até que ela passa por trabalhadores que estão fazendo reparos em bueiros no meio da rua. Trabalho pesado, barulhento, infernal. Ela sai da calçada com o carrinho e chega bem perto do trabalhador que está perfurando o asfalto com uma britadeira. Estaciona o carrinho ao lado da britadeira que faz um barulho torturante. Close em seu rosto: por um instante, ela tem o conforto de trocar o choro do filho por outro ruído que, aos seus ouvidos, soa como um solo de flauta. Não é que a mãe de Kevin não aguentasse mais o barulho do choro: ela não aguentava mais o barulho da própria culpa por ser incapaz de cumprir o papel de mãe amorosa e abnegada daquele pequeno demônio de fraldas. O que temos em evidência é a incapacidade materna.

Ao atingir idades entre quatro a dez anos, Kevin demonstra ser uma criança cada vez mais irônica, sádica e irritante. Evitando a mãe o tempo todo, esquivando-se das tentativas que Eva construía para interagir com ele ou provocando-a com respostas negativas e sarcásticas. Não há uma demonstração de afeto entre os dois, apenas a violência recíproca e a falta de sentimentos positivos.

No desenrolar da trama surgem as dúvidas dos motivos que levaram Kevin a desenvolver esse comportamento doentio. O garoto não só demonstra sinismo e antipatia, mas uma crueldade infindável. Se antes levamos em consideração o relapso da mãe, a inépcia dos pais no cuidado do filho, resultando no comportamento agressivo de Kevin, logo deixamos de observar apenas este lado e obtemos a certeza de que o problema é mais complexo.

Mas então, existe realmente um culpado ou isso se estende no subjetivo de cada pessoa? Somente os pais são os culpados pelas condutas violentas das crianças e jovens? É possível que, ao sentir-se que não foi desejada, a criança possa desenvolver uma conduta de violência? O que é a psicopatia? Existe justificativa para aquilo que não tem explicação? O filme tenta responder essa pergunta, mas não dará nenhuma resposta, não diretamente, mas as deixarão soltas, para que as pessoas que o vejam reflitam sobre as questões familiares.

Sabemos que a relação da mãe com o filho é extremamente importante para a constituição da criança como sujeito e da sua relação com o mundo, isso porque a família é o primeiro grupo em que a criança está inserida, e é daí que partirão os princípios e valores. Está nos pais a base psicológica da criança, no entanto, o meio externo também influenciará na conduta desta, além de predisposições genéticas. É nesse momento que os olhares viciosos deixam de existir, aqueles que só culpam a criança “birrenta” que é Kevin, e chega-se à conclusão que o filme não tem o objetivo de definir o papel do vilão e da vítima.

Este talvez seja o principal objetivo do filme, manter seus espectadores num cenário onde não é permitido juízo de valores. É preciso observar cada cena, cada acontecimento de forma profunda, uma vez que é isso que dará a resposta para as perguntas feitas no começo: Qual o motivo desse crime? O que faltou na vida de Kevin? Ele não possui nenhum trauma evidente: abuso sexual, violência física, presenciou algum crime ou foi vitima de algum acidente grave... Esses questionamentos surgem ao longo da história cada vez mais fortes, porque é isso que a trama provoca; uma série de perguntas e respostas que ora se perdem ora se completam.

Este é um filme emocionalmente pesado que traz à tona inúmeras questões a serem discutidas do ponto de vista do relacionamento entre pais e filhos, da colocação de limites, da repercussão da dificuldade de comunicação de afetos entre mãe e filho, dos possíveis problemas decorrentes da depressão pós-parto e da dificuldade dos pais em entrar em contato com aspectos cruéis de seus filhos. Teria Kevin se beneficiado, assim como sua mãe, família e por final toda a sociedade, se suas dificuldades tivessem sido abordadas o mais cedo possível? Poderia uma abordagem terapêutica com foco na interação mãe-bebê ter alterado favoravelmente o curso de seu desenvolvimento? Qual seria o papel dos terapeutas, psicólogos e psiquiatras em situações como as descritas no filme? Até que ponto a ausência de um trabalho terapêutico focado no entendimento desse relacionamento e na expressão do afeto poderia ter alterado o desfecho fatal? Ainda não sabemos quanto do comportamento antissocial é decorrente do ambiente e quanto já é inato ao indivíduo. Essa angústia, infelizmente, seguirá conosco mesmo após o final do filme.

Aparentemente a família de Kevin é extremamente normal, na sua superfície, mas com sérios problemas de convivência. Não há limites na criação de Kevin. Enquanto Eva é a única que vê a crueldade do filho, o pai fecha os olhos e deixa passar todos os problemas que estão gritando por todos os cantos da casa. Embora a mãe tenha conhecimento do comportamento violento do filho, ela também não procura solução, não se atinge a problemática do assunto.

Não há limites, não há diálogos. Os pais estão presentes, mas não enxergam, em nenhum momento, as necessidades emocionais do filho. Não falam sobre o Kevin, não falam com o Kevin sobre o que está havendo. Eva e Franklin mantiveram-se distante dele diversas vezes, fechando os olhos para a patologia que estava diante de seus olhos.

Ao contrário do que se possa imaginar, Kevin não cometeu suicídio após perpetrar o terror em sua escola. Isso não seria, até mesmo, condizente com o olhar desafiador e arrogante que ele manteve por boa parte de sua vida. Ele calculou tudo, queria ir para a prisão. Só não sabia, talvez, que condenaria também a sua mãe a uma espécie de prisão.

O ato de covardia de Kevin é ainda maior porque não é ele quem tem que encarar as pessoas e o peso da culpa após cometer esse crime. Este sofrimento cabe à sua mãe. O filme é certeiro em analisar friamente cada ato e cada falha de Eva como mãe. Mas, é ela que permanece ao lado do filho no final. O roteiro passa a mão na cabeça do pai compreensivo, Franklin, até a última cena – fazendo até parecer normal que tenha sido ele a pessoa a estimular o hábito de arco e flecha do filho que se revelaria o modus operandi do crime que ele cometeu.

Ao final da obra a sensação de cansaço e de peso nos ombros atinge de tal maneira que se passa dias relembrando as cenas fortes mostradas no filme. E os questionamentos continuam perambulando na mente. E sabemos que; Precisamos falar sobre o Kevin, precisamos falar com o Kevin, precisamos falar com a Eva, e precisamos falar com o Franklin, pois na realidade, é difícil definir um verdadeiro culpado.

Referências: Psicologia e Cinema, Cinefila Por Natureza, EnCena, RBP

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8 comentários:

  1. nossa!! eu estou com esse livro pra ler, mas não sabia que tinha filme, vou ler o livro primeiro, eu quero ler exatamente pelo conteudo psicológico que existe nele, parece incrivel!

    queria te deixar uma pergunta: toda pessoa ''má'' comete maldades por causa do contexto em que viveu (abusos, agressões) ou ela escolheu esse caminho? eu não sei o que pensar sobre as pessoas que matam, que maltratam, que agridem...

    http://est-simple.blogspot.com.br/

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    1. Paula, leia mesmo e depois assista o filme. São obras que valem muito a pena!

      Quanto a sua pergunta, não podemos determinar nada dessa forma. Cada caso é um caso, pois cada pessoa é um mundo totalmente diferente. Não podemos afirmar que toda pessoa que comete maldades viveu abusos ou agressões, assim como muitas pessoas, que mesmo tendo passado por situações traumáticas, conseguiram lidar com elas, supera-las e ter um comportamento diferente. Se você apanhou dos seus pais, pode escolher não bater em seus filhos, ao invés de repetir os mesmos atos. Ou não. Vê como depende? É preciso ter cuidado com determinações desse tipo e buscar analisar cada história da forma única que ela se apresenta.

      Obrigada pela visita e participação!!
      Abraço

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  2. Como é bom ler uma análise tão profunda! Acabei de assistir ao filme, ainda que não tenha lido o livro. Assim que terminei o filme, fui logo ler alguns comentários no Filmow mas fiquei bastante decepcionado com a superficialidade dos debates.

    Tenho bastante curiosidade sobre o tema da psicopatia (causas e consequências para o paciente, familiares e sociedade). Gostei bastante do blog, e como futuro estudante de Psicologia, pretendo aprender e acrescentar algo por aqui. Abraços! :)

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  3. Gostei muito da sua leitura. Como psicólogo sistêmico compreendo o individuo e família. Acredito que teoria do apego, teoria da comunicação, ciclo de vida familiar poderiam complementar a discussão. Forte abraço

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  4. O filme e o livro são obras excepcionais. Nos leva a muitas reflexões.
    Seu texto Isabela ficou bom, todavia é importante citar as fontes, pois há trechos no seu texto que está igual a uma publicação de 2011 da Revista Brasileira de Psicoterapia do psiquiatra Felipe A. Picon. Abraço.

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    1. Eu também reparei isso. Mas realmente o texto ficou bom.

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  5. Todas as vezes que assisto o filme, tenho uma visão diferente dos personagens, a segunda filha também não foi planejada mas acho que para Eva, era uma oportunidade de tentar de novo.

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  6. Adorei o texto, mas senti falta do que mais me intrigou no filme inteiro: *ALERTA SPOILER* no final ele acaba matando o pai e a irmã que pareciam ser as únias pessoas que ele tinha afinidade. Será que o carinho com o pai era tudo fingimento e que o objetivo da vida dele era atormentar a mãe? Ele não matou a mãe por que a odiava e achou que seria melhor torturá-la? No fim ele "perdoa" a mãe?

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