"Eu e Tu", e a filosofia do diálogo de Martin Buber

quinta-feira, 30 de outubro de 2014 | 19:54 | Por 2 comentários
Martin Buber (1878-1965) nasceu em Viena, Áustria. Mais pensador do que filósofo acadêmico, também escritor, jornalista e pedagogo, de origem judaica, foi um respeitado teólogo que pregava o diálogo. Sua obra mais densa e bela foi "Eu e Tu" de 1923, que é a chave de todas as suas outras obras. Sua filosofia do diálogo - da relação - ponto central de toda a sua reflexão, tanto no campo da filosofia ou dos ensaios sobre religião, política, sociologia e educação, atingiu sua expressão madura e completa justamente em Eu e Tu.

"A ontologia da relação será o fundamento para uma antropologia que se encaminha para uma ética do inter-humano. Diz-se então que o homem é um ente de relação ou que a relação lhe é essencial ou fundamento de sua existência." (p. 29) Com isso, observamos o encontro do pensamento de Buber com a fenomenologia. Buber definiu duas atitudes distintas do homem face ao mundo ou diante do ser: essas atitudes se traduzem pelas palavras-princípios "Eu-Tu" (relação) e "Eu-Isso" (relacionamento). A primeira é um ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua, o Eu é uma pessoa e o outro é o Tu. Na segunda, o Eu é um sujeito de experiência, de conhecimento, e o ser que se lhe defronta um objeto. É a utilização, atitude objetivante. O Tu é primordial e consequentemente o Isso é posterior ao Tu. "No princípio é relação".

As duas palavras-princípio fundam duas possibilidades do homem realizar sua existência. A palavra Eu-Tu é o esteio para a vida dialógica, e o Eu-Isso instaura o mundo do Isso, o lugar e o suporte da experiência, do conhecimento, da utilização. A alteridade essencial se instaura somente na relação Eu-Tu, pois é no encontro dialógico que acontece uma recíproca presentificação do Eu e do Tu. No relacionamento Eu-Isso o outro não é encontrado como outro em sua alteridade. Na relação dialógica estão na "presença" o Eu como pessoa e o Tu como outro.

Para Buber, o Eu se torna Eu em virtude do Tu. Isso não significa que devo a ele o meu lugar. Eu lhe devo a ele minha relação a ele. "Eu-Isso é proferido pelo Eu como sujeito de experiência e utilização de alguma coisa. A inteligência, o conhecimento conceitual que analise um dado ou um objeto é posterior à intuição do ser. O Eu de Eu-Isso usa a palavra para conhecer o mundo, para impor-se diante dele, ordená-lo, estruturá-lo, vencê-lo, transformá-lo. Este mundo nada mais é que objeto de uso e experiência." (p. 33)

"O mundo do Isso, ordenado e coerente, é indispensável para a existência humana; ele é um dos lugares onde nós podemos nos entender com os outros. Ele é essencial na vida humana, mas não pode ser o sustentáculo ontológica do inter-humano. A afirmação de prioridade ao diálogo no qual o sentido mais profundo da existência humana é revelado não nos deve levar à conclusão de que a atitude Eu-Isso seja algo de negativo, inferior ou um mal. A contrário, ela é uma das atitudes do homem face ao mundo, graças à qual podemos compreender todas as aquisições da atividade científica e tecnológica da historia da humanidade. Em si o Eu-Isso não é um mal; ele se torna fonte de mal, na medida em que o homem deixa subjugar-se por essa atitude, absorvido em seus propósitos, movido pelo interesse de pautar todos os valores de sua existência unicamente pelos valores inerentes a esta atitude, deixando, enfim, fenecer o poder de decisão e responsabilidade, de disponibilidade para o encontro com o outro, com o mundo e com Deus. Enquanto humanas, as duas atitudes são autênticas." Buber dizia que "se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem".

Buber propõe ao ser humano a realização da vida dialógica, uma existência fundada no diálogo. Podemos resumir as principais características do mundo do Tu em: imediatez, reciprocidade, presença, totalidade, incoerência no espaço e no tempo, a fugacidade e a inobjetivação. A reciprocidade permanece como parâmetro valorativo das diversas relações Eu-Tu nas diferentes esferas que Buber distinguiu.

Buber ja diagnosticava, em 1923, uma tendência da sociedade contemporânea (que ele chamou de "doente") de contribuir para uma degradação do sentido do humano. Mas a nostalgia do humano, nele provocada por situações de profunda crise no mundo dos homens onde a controvérsia e cisões imperavam, aliava-se a uma profunda esperança no poder de relação, na força do diálogo que faria do homem uma pessoa livre e responsável diante de seu destino. 

A profunda esperança e fé no homem presentes em sua obra e em sua vida, incentivaram Buber a lançar, exatamente através da obra e da vida, um apelo que se concretizou como uma voz, um diálogo, um testamento legado a todos nós que estamos realmente preocupados com a sorte do homem. Assim, diante da imensidão da obra e da riqueza existencial deste mestre torna-se difícil, para muitos, compreender exatamente a sua afirmação: "Não tenho ensinamentos a transmitir... Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo".

Poderíamos cercear o vigor deste homem se o qualificássemos de "existencialista", comparando-o aos grandes filósofos e pensadores como Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Jaspers. Se o âmago do existencialismo ou da filosofia da existência se revela de um lado como protesto e denúncia contra sistemas, abstrações e conceitos e de outro como a afirmação e a exigência de compromisso com a concretude e com o desafio da existência concreta de cada um, talvez todos esses filósofos tenham falhado no seu intento, não dialogando com o desafio da existência - em ásperos monólogos se enclausuraram na aridez de seus sistemas, teses e abstrações. Poderíamos concluir, como afirma o professor W. Kaufmann, que na realidade só existiu um existencialista que não foi exatamente existencialista, e sim, Martin Buber.

Referência: Eu e Tu. Martin Buber. Tradução do alemão e introdução por Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo. Centauro, 2001.
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2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Por que os citados filósofos "existencialistas" não dialogaram com o desafio de suas existências? Pois é apenas dito que eles permaneceram enclausurados em seus "áridos sistemas, teses e abstrações".

    É uma pena que o texto não tenha tornado minimamente presente a fala dos acusados, a fim de demonstrar minimamente o que diz.Talvez o texto não tenha a intenção de ser dialógico.

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